2004. Em Goiânia novamente. Quando estava me adaptando à vida no sul, fui obrigado a esquece-la e readaptar aqui. Perdia os amigos feitos lá. Não conseguia encontrar os antigos daqui. O choro era incontrolável, tanto pela raiva quanto pelo atestado de fraqueza. Fomos até a Escola de Engenharia da UFG. Federal para federal, transferência fácil.
Engano. “Vai ter que prestar outro vestibular!”
Um ano parado? Está bom, meu filho, pelo menos você está aqui com a família. Mas é melhor entrar em um cursinho.
Eu tinha muita segurança em relação à minha inteligência. Para não ficar completamente a toa, fiz um curso de italiano no primeiro semestre. No segundo, comecei o cursinho.
Martelos caiam sobre minha cabeça em cada segundo do cursinho. Tudo era repetido onze, dezessete vezes. Quer sentir The Wall na pele, vá para um cursinho. Durante as aulas, sentia sensação de desmaio, despersonalização, taquicardia, falta de ar, suava frio, dores no peito. Ia embora de lá, ficava tudo bem. Entrava, vinha tudo isso. Saí depois de um mês.
Passei o resto do ano sem fazer nada, além de estudar italiano.
Chegou o dia do vestibular. “Você não estudou, não vai passar”. Calei muita gente.
No dia da matrícula, conversei com o coordenador, que fez o possível para aproveitar as matérias que eu já havia cursado, com sucesso.
Baque número um. Enquanto as salas de aula da UFSC possuiam ar condicionado, eram arejadas e com todas as carteiras estofadas, as da UFG pareciam ter saído de uma guerra em que foram derrotadas.
Achei os novos colegas estranhos. Eles me acharam estranhos. Não fiz questão de me enturmar. Não fizeram questão de se enturmarem. Pelo menos uma coisa em comum.
Dois meses depois de começarem as aulas, meu corpo não se conformava em ficar lá. Tudo que sentia no cursinho voltava com mais intensidade: dores no peito e falta de ar. Estava morrendo?
Parei de ir às aulas para ir aos médicos. Cardiologista, neurologista, laboratórios, hospitais, clínicas. Tudo perfeito, diziam.
Mas não podia estar. O corpo era meu e não estava mais me obedecendo. Minha mãe, médica, acreditava nos outros médicos. E, em coro, dizia que estava tudo perfeito.
O preconceito caiu e fui até um psiquiatra. O remédio aliviaria os sintomas, mas a cura viria com a terapia.
Fiz umas visitas à psicóloga. Estávamos indo bem – eu, que sempre fui cético em relação a psicólogos, estava gostando das sessões, que não podiam ser interrompidas até a cura. Surpresa! Umas semanas depois do início do tratamento, minha mãe havia ligado para a doutora, contando minha vida, e tudo o mais que não era de seu governo.
Tive que aumentar a dose dos anti-depressivos, os quais ainda tomo.
Continuo também na faculdade, frequentando (ou não) as aulas porque prometi um canudo escrito “Goiás”, bem grande, para meus pais. A promessa mais difícil que já fiz até hoje: acredite, é complicado ter que aprender a calcular todas as vigas e pilares de um prédio de 200 andares em um terreno sujeito a terremotos quando não se tem mais tesão para isso.
Minha mãe acha que está tudo bem. Meu pai não acha nada. Aqui em casa foi banida a palavra “Florianópolis” (e tudo parecido com isso). Quando vou ser feliz? Não importa. O importante é que estou com a família.
Pós-Escrito
Muita gente vai ler essa história e dizer: “está chorando de barriga cheia” ou “todos os pais são assim” ou, pior, “queria ver se sua mãe não estivesse nem ai com você!”.
O fato é que não dou a mínima para essas pessoas. E nem reclamo mais da minha vida – só fiz um breve relato. A verdade é que pais ausentes são, muitas vezes, melhores do que pais presentes. Desde que dêem dinheiro. O excesso de carinho e de proteção prende, não prepara para a vida e frustra. E a frustração é o pior sentimento do mundo, especialmente quando você sente que foi capaz.
Tags: absurdo, amor, Brasil, depressão, engenharia, faculdade, família, Gente, goiânia, igreja, italiano, mamãe, mãe, pai, pânico, proteção, psicólogo, psiquiatra, suicídio, terapia, ufg, ufsc, viagem
Janeiro 13, 2009 às 1:49 pm
se o caso eh dar um “canudo”.. tem que ser de Engenheiro logo???
tem como fazer um negoço que tu goste naum, homi??
tipo: música? Educação Física (por causa da coisa da bicicleta…)
affe.
me senti com claustrofobia!! que coisa!!
Janeiro 13, 2009 às 7:55 pm
ai ai ai.. Altair…
fiz uma indicação pra tu no meu blog.
passa lá pra ver;)
bjus, inté!!
Janeiro 14, 2009 às 12:44 am
hmmmm
:S
Janeiro 23, 2009 às 5:59 pm
Olá, estava navegando na internet e não sei como, acabei parando em seu blog. Gostaria de dizer que o seu desabafo foi muito legal. Acho que a melhor maneira de soltar o que está entalado dentro de nós é assim mesmo, desabafando. A sua história não é muito diferente da histórias de vários rapazes com a mesma classe social que você. A diferença é que cada pessoa toma um rumo diferente na vida e faz escolhas diferentes. Existem pessoas que sabem absorver as coisas boas mesmo quando acontece uma coisa ruim, e quando caem, aprendem que de alguma forma foi uma lição e que até o ruim tem um lado bom, serve para aprendermos com os erros.Tudo que acontece com vc foi escolha sua. Acho que vc age mto errado culpando sua mãe ou sua família. Vc deve enxergar que o problema está em si mesmo e em mais ninguém. As vezes os pais erram tentando preservar o filho e aí vem a vida e dá um tapa nas costas pra pessoa acordar! Acho que o seu problema é tão pequeno no meio de tantos que vc deveria agradecer todo dia por ter nascido com saúde e num seio famíliar estável. O dinheiro não é tudo na vida, quando você for embora desse mundo não irá levar nada, somente o sentimentos que guarda dentro de si. Então, procure se amar mais, procure abrir espaço para as pessoas que gostam realmente de vc e dê valor nisso. Tem tanta gente que queria ter uma mãe só pra ser preocupar com ela ou para ser cuidado, mimadopor ela, vc tem isso e não dá valor. Mãe é uma coisa sagrada, e por pior que ela seja, nunca devemos falar mal dela, nada! Acorde para a vida e você verá que seus problemas são minúsculos perto do de milhares de pessoas. Pode ter alguém precisando de vc e vc está perdendo tempo alimentando frustrações que nem se quer começaram. Vc ainda vai passar por muitas coisas nessa vida. Procure adquirir forças para enfrentar os problemas e sempre seguir em frente… A sua vida só está começando rapaz! Vc não é mais nenhuma criança. Corra atrás da sua felicidade e não culpe ninguém quando as coisas não derem certo pra vc! A vida é assim, com altos e baixos… Chegou a hora de acordar!!!